Amantes

Cláudio,

O que você fez comigo?

Revirou minha cabeça, meus pés e fez do meu sono de todo dia um sonho gostoso, como brisa de inverno depois de um longo verão. Na verdade você chegou de forma inesperada: sem pedir licença. Nunca gostei de pessoas que entram na vida da gente dessa forma, mas você vem ao encontro justamente daquilo que eu não sou ou não gosto ou insisto em achar que não quero.

Vir. De novo. Todo dia. Virou. Toda noite. Revirou.

Como adolescente inebriada pela primeira paixão, abro os olhos de manhã e sua imagem imediatamente toma todos os meus pensamentos. Posso ver seus olhos beijando os meus. Um suspiro! Bem como o doce, é saboroso sentir você. Sigo meus afazeres, no sobressalto de todo dia, mas as coisas são diferentes. O tempo pára.

Atravesso a rua e percebo a criança que brinca sorridente no colo de sua mãe. Vejo os pássaros voando em sincronia acima da minha cabeça. Ouço aquela música que toca bem baixinho ao fundo da conversa na mesa de bar. Estão todos lá, os detalhes. O amor faz isso? Faz a gente desacelerar e perceber o que sempre esteve ali de forma totalmente nova? Espera. Eu não disse que era amor (risos!). Não sei se é. Não dá para saber. Ainda.

O que sei é que você me acompanha a cada passo. Seus olhos vivos, sua boca sagaz dizendo meu nome, suas mãos tranquilas. Tudo me acompanha e gosto disso. Gosto muito.

Não vejo a hora de te ver. De novo. E outra vez. E novamente. E todo dia. E todo sempre. Sempre é muita coisa, eu sei. Por hoje só quero você. Comigo. Nós dois. Juntos. Nossa varanda. O céu. A lua a nos iluminar e o mar a entoar a nossa canção.

Te espero.

Luna.

Anúncios

Carta para Rute.

Rute,

Sinto. Saudade. De. Você.
Assim, com muitos pontos e um tanto de reticências entre eles.

Ah, Rute. Não temos mais 15 anos. Não temos mais nem 25 anos (risos!). Sinto tanta falta do tempo em que não tínhamos medo de sair à rua para tomar sorvete no mercantil, do tempo em que escrevíamos cartas uma para outra e entre nosso grupo de amigas, dos abraços apertados e sinceros, das conversas sobre amor. Sinto falta da brincadeira de ‘verdade ou desafio’. Lembra? Você era tão corajosa. Sempre respondia tudo o que te perguntavam, sem medo de ser julgada. Eu queria ser como você: não me importar com ninguém, a não ser com a minha própria  verdade. Mas a verdade é que o tempo passa. E passou por nossos olhos tão rápido que nem demos conta disso.

Por onde você anda? O que está fazendo? Ainda tem a mesma ousadia dos tempos de adolescência? Acho que seria bom te reencontrar, poder lembrar de tudo, poder aquecer o coração para seguir.

Um abraço e um beijo.

Mel.

Um chocolate quente e uma cadeira de frente para o mar.

Photokore_Relax on The Beach_ZUNjRQ

Era disso que eu precisava. Um chocolate quente, daqueles que quando a gente traz a xícara perto da boca, sente o ar quente aquecer o rosto. E ele, com toda a sua imensidão, com toda a sua beleza e com todo o seu encantamento, o mar. Só.

Sozinha. Já bastavam as vozes na minha própria cabeça a não me deixarem só, nem por um minuto. Não precisava de gente falando ao meu lado ou mesmo em silêncio. Não precisava de gente que não fosse eu.

Eu precisava me bastar naquele momento. Precisava olhar para o horizonte e encontrar comigo mesma, ou com o que foi de mim, ou com o que sobrou de mim. É que a gente vai se perdendo ao longo da vida. É como se algo que do fomos ontem, fosse ficando ao longo do caminho, até que nos deparamos com um novo eu.

Sim, isso é bom. Toda mudança é boa ou gera algo de positivo, mesmo que não a principio. Mas eu queria era resgatar o que fui, que faz falta no que sou. Resgatar os sonhos, os devaneios, os olhares puros e menos apreensivos, os amores perdidos, as amizades enterradas, a leveza do dia-a-dia, a calma dos passos. Cada gole de chocolate me fazia lembrar tudo o que desejava resgatar. Como se o ato de beber fizesse com que essas coisas entrassem em mim, misturadas ao doce do chocolate.

Sempre acreditei que o mar cura. Que ele pode levar e trazer o que a gente quiser. Não foi diferente aquele dia. Sentei ali, olhando para ele e vendo a mim mesma. Pedindo que ele trouxesse suavemente o que eu havia mandado embora outrora, mesmo que sem intenção.

Amor em desatino.

Carnaval-de-Cores

Ela corre desesperadamente no meio daquela imensidão de mato. O verde é tanto que se confunde com a cor dos seus olhos. Olhos que mais parecem dois limões querendo partir-se ao meio. O vento insiste em assanhar o seu longo cabelo encaracolado. A roupa, até então branca, está um tanto quanto escurecida. As sandálias ficaram no meio do caminho. Os pés, agora livres, podem sentir o friozinho do roçar do mato. Ela corre tão desesperadamente que cai e cola o seu rosto no chão sujo. Uma lágrima escorre do seu olho. Uma lágrima é pouco pra que ela pare. Levanta-se num ímpeto e volta a correr. Passa a mão na boca para retirar a areia. Os olhos estão marejados. As pernas estão cansadas, mas motivadas a correr ainda mais rápido, sabe-se lá por que. A cada passo sua respiração fica mais ofegante. O chão parece puxá-la para baixo com uma força estrondosa e o coração insiste em deixá-la de pé e firme. O cansaço é tanto que ela pensa em desistir por várias vezes. Na última seus olhos avistaram algo. Olhos marejados agora vívidos estão. Ela parece não acreditar que avista enfim aquela casa. Ainda está longe, mas reconhece a sua cor amarelada. O sorriso aparece entre lágrimas. Corre. Corre ainda mais rápido. A porta está entreaberta. Empurra-a. Entra de supetão. Olha para todos os lados e vê que tudo está desarrumado. Um vendaval parece ter passado por ali. Ela nem consegue pensar. Olha a escada e desata a correr. Sobe os dez degraus como se fossem cinco e logo avista a sala de pintura. Entra. Ele está? Deitado entre tintas e pincéis. De longe parecia tão tranqüilo e de perto parecia tão frio. Suas mãos estão geladas. Aquelas mãos que tantas vezes a aqueceram. O seu corpo parece pesado. Ela quase não consegue virá-lo. Beijou a sua boca suja de tinta. Tinta e areia tornam-se um neste momento. Lembrou-se de tantos quadros que ele havia pintado dela naquele mesmo lugar. Naquele quarto ele deu vida há tantos quadros. Naquele quarto ele perdeu a vida. E ela também.

Eu te amo, porra.

Heitor,

Mal consigo respirar. Você se foi há exatamente 2 minutos e 55, não, espera, 56 segundos e cá estou eu, em devaneio. Será que eu tive um pesadelo? Ainda não acredito que você me deixou.

Heitor, eu te amo, porra! Dá pra entender?

Você acha que aquela menininha vai te amar mais do que eu (se é que ela sabe o que é o amor)? Coitado de você se acredita nisso, meu querido. Coitado! Quando essa ninfeta acordar para realidade e der de cara com um careca barrigudo vai procurar o primeiro macho alfa que passar na esquina.

E você vai fazer o quê, me diz? Voltar para mim? Casa, comida e cueca lavada? Nem morta, ou melhor, só morta eu volto para você depois de 48h.

Sim, é isso mesmo que você leu. Você tem 48 horas para voltar para nossa casa, de mala e cuia, de preferência com um bom pedido de desculpas e eu, como boa esposa que sempre fui, vou pensar se consigo conviver com mais esse peso na cabeça…

Agora você só tem 47 horas e 45 minutos.

Rosa.

Volta!

Ana,

Você sabe que o pássaro é o animal mais sortudo do universo?

Ele pode sentir a liberdade pulsar no coração quando o vento bate em seu rosto. Conhece o céu como ninguém, por isso adora estar perto dele. O pássaro conhece a sensação de perigo e de medo, mas enfrenta ambas, pois sabe que o que vem depois é recompensador.

Ele adora andar em grupo, sente-se mais feliz dessa forma, mas entende que alguns vôos precisam ser alçados sozinhos. Sendo assim, o pássaro sabe bem o que é sentir saudade. Reconhece que a saudade machuca, fere, mas que ela é fruto do amor. E sem dor, não há amor.

Então, com fome do mundo, o pássaro sabe que pode ir para qualquer lugar, mas o caminho de casa; o caminho dos seus, estará sempre gravado em seu coração.

Por isso, voa minha ‘passarinha’. Ganha o mundo. E volta. Volta.

Roberto.

Pedro, eu vou casar.

Pedro,

Não esqueço a primeira vez em que te vi. O sol brilhando entre nós e a minha visão turva só enxergava o teu sorriso largo. Eu sinto falta do teu riso com o meu riso. Éramos dois malucos, envolvidos por uma paixão efervescente e pura. Sabe que ainda lembro o gosto do teu beijo? Teu corpo quente ao encostar o meu, tuas mãos suavemente rápidas nos meus longos cabelos, o céu acima de nós e entre nós, tudo.

Lembro da nossa primeira dança, narizes encostados e eu podia sentir o teu respirar; o teu existir. Lembro de você correndo atrás de mim, tentando me pegar. Dos abraços apertados, das conversas intermináveis, das tuas cantadas baratas e do teu olho azul a fitar o meu. Lembro com desprazer da nossa despedida. Você me disse: “o último beijo”. Como você sabia? Como podia ter tanta certeza de que seria o último? Se eu soubesse…

Vou casar. Daqui a um mês. Eu o amo! E agora te escrevo essa carta sem saber muito bem o motivo. Afinal, mais de 15 anos se passaram… Nossa! 15 anos! Tem coisas que o tempo não apaga, não é?

Cris.