Um chocolate quente e uma cadeira de frente para o mar.

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Era disso que eu precisava. Um chocolate quente, daqueles que quando a gente traz a xícara perto da boca, sente o ar quente aquecer o rosto. E ele, com toda a sua imensidão, com toda a sua beleza e com todo o seu encantamento, o mar. Só.

Sozinha. Já bastavam as vozes na minha própria cabeça a não me deixarem só, nem por um minuto. Não precisava de gente falando ao meu lado ou mesmo em silêncio. Não precisava de gente que não fosse eu.

Eu precisava me bastar naquele momento. Precisava olhar para o horizonte e encontrar comigo mesma, ou com o que foi de mim, ou com o que sobrou de mim. É que a gente vai se perdendo ao longo da vida. É como se algo que do fomos ontem, fosse ficando ao longo do caminho, até que nos deparamos com um novo eu.

Sim, isso é bom. Toda mudança é boa ou gera algo de positivo, mesmo que não a principio. Mas eu queria era resgatar o que fui, que faz falta no que sou. Resgatar os sonhos, os devaneios, os olhares puros e menos apreensivos, os amores perdidos, as amizades enterradas, a leveza do dia-a-dia, a calma dos passos. Cada gole de chocolate me fazia lembrar tudo o que desejava resgatar. Como se o ato de beber fizesse com que essas coisas entrassem em mim, misturadas ao doce do chocolate.

Sempre acreditei que o mar cura. Que ele pode levar e trazer o que a gente quiser. Não foi diferente aquele dia. Sentei ali, olhando para ele e vendo a mim mesma. Pedindo que ele trouxesse suavemente o que eu havia mandado embora outrora, mesmo que sem intenção.

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Amor em desatino.

Carnaval-de-Cores

Ela corre desesperadamente no meio daquela imensidão de mato. O verde é tanto que se confunde com a cor dos seus olhos. Olhos que mais parecem dois limões querendo partir-se ao meio. O vento insiste em assanhar o seu longo cabelo encaracolado. A roupa, até então branca, está um tanto quanto escurecida. As sandálias ficaram no meio do caminho. Os pés, agora livres, podem sentir o friozinho do roçar do mato. Ela corre tão desesperadamente que cai e cola o seu rosto no chão sujo. Uma lágrima escorre do seu olho. Uma lágrima é pouco pra que ela pare. Levanta-se num ímpeto e volta a correr. Passa a mão na boca para retirar a areia. Os olhos estão marejados. As pernas estão cansadas, mas motivadas a correr ainda mais rápido, sabe-se lá por que. A cada passo sua respiração fica mais ofegante. O chão parece puxá-la para baixo com uma força estrondosa e o coração insiste em deixá-la de pé e firme. O cansaço é tanto que ela pensa em desistir por várias vezes. Na última seus olhos avistaram algo. Olhos marejados agora vívidos estão. Ela parece não acreditar que avista enfim aquela casa. Ainda está longe, mas reconhece a sua cor amarelada. O sorriso aparece entre lágrimas. Corre. Corre ainda mais rápido. A porta está entreaberta. Empurra-a. Entra de supetão. Olha para todos os lados e vê que tudo está desarrumado. Um vendaval parece ter passado por ali. Ela nem consegue pensar. Olha a escada e desata a correr. Sobe os dez degraus como se fossem cinco e logo avista a sala de pintura. Entra. Ele está? Deitado entre tintas e pincéis. De longe parecia tão tranqüilo e de perto parecia tão frio. Suas mãos estão geladas. Aquelas mãos que tantas vezes a aqueceram. O seu corpo parece pesado. Ela quase não consegue virá-lo. Beijou a sua boca suja de tinta. Tinta e areia tornam-se um neste momento. Lembrou-se de tantos quadros que ele havia pintado dela naquele mesmo lugar. Naquele quarto ele deu vida há tantos quadros. Naquele quarto ele perdeu a vida. E ela também.

Eu te amo, porra.

Heitor,

Mal consigo respirar. Você se foi há exatamente 2 minutos e 55, não, espera, 56 segundos e cá estou eu, em devaneio. Será que eu tive um pesadelo? Ainda não acredito que você me deixou.

Heitor, eu te amo, porra! Dá pra entender?

Você acha que aquela menininha vai te amar mais do que eu (se é que ela sabe o que é o amor)? Coitado de você se acredita nisso, meu querido. Coitado! Quando essa ninfeta acordar para realidade e der de cara com um careca barrigudo vai procurar o primeiro macho alfa que passar na esquina.

E você vai fazer o quê, me diz? Voltar para mim? Casa, comida e cueca lavada? Nem morta, ou melhor, só morta eu volto para você depois de 48h.

Sim, é isso mesmo que você leu. Você tem 48 horas para voltar para nossa casa, de mala e cuia, de preferência com um bom pedido de desculpas e eu, como boa esposa que sempre fui, vou pensar se consigo conviver com mais esse peso na cabeça…

Agora você só tem 47 horas e 45 minutos.

Rosa.

Volta!

Ana,

Você sabe que o pássaro é o animal mais sortudo do universo?

Ele pode sentir a liberdade pulsar no coração quando o vento bate em seu rosto. Conhece o céu como ninguém, por isso adora estar perto dele. O pássaro conhece a sensação de perigo e de medo, mas enfrenta ambas, pois sabe que o que vem depois é recompensador.

Ele adora andar em grupo, sente-se mais feliz dessa forma, mas entende que alguns vôos precisam ser alçados sozinhos. Sendo assim, o pássaro sabe bem o que é sentir saudade. Reconhece que a saudade machuca, fere, mas que ela é fruto do amor. E sem dor, não há amor.

Então, com fome do mundo, o pássaro sabe que pode ir para qualquer lugar, mas o caminho de casa; o caminho dos seus, estará sempre gravado em seu coração.

Por isso, voa minha ‘passarinha’. Ganha o mundo. E volta. Volta.

Roberto.

Pedro, eu vou casar.

Pedro,

Não esqueço a primeira vez em que te vi. O sol brilhando entre nós e a minha visão turva só enxergava o teu sorriso largo. Eu sinto falta do teu riso com o meu riso. Éramos dois malucos, envolvidos por uma paixão efervescente e pura. Sabe que ainda lembro o gosto do teu beijo? Teu corpo quente ao encostar o meu, tuas mãos suavemente rápidas nos meus longos cabelos, o céu acima de nós e entre nós, tudo.

Lembro da nossa primeira dança, narizes encostados e eu podia sentir o teu respirar; o teu existir. Lembro de você correndo atrás de mim, tentando me pegar. Dos abraços apertados, das conversas intermináveis, das tuas cantadas baratas e do teu olho azul a fitar o meu. Lembro com desprazer da nossa despedida. Você me disse: “o último beijo”. Como você sabia? Como podia ter tanta certeza de que seria o último? Se eu soubesse…

Vou casar. Daqui a um mês. Eu o amo! E agora te escrevo essa carta sem saber muito bem o motivo. Afinal, mais de 15 anos se passaram… Nossa! 15 anos! Tem coisas que o tempo não apaga, não é?

Cris.

Que tal um café?

Olá leitores.

O homem sempre teve necessidade de se comunicar. É assim desde a pré-história. De lá até aqui, temos seguido.

O fato é que seguir nem sempre significa progredir. O ser humano evoluiu ao longo dos anos e a sociedade modificou-se e modifica-se quase que instantaneamente. A comunicação já não é a mesma.

O mundo globalizado, por exemplo, trouxe consigo o encurtamento das distâncias. Agora mesmo você está lendo essas linhas em qualquer lugar do mundo. Eis aí a distância encurtada.

Será? Será que hoje, com tantas formas de chegar ao outro, temos de fato ido ao seu encontro?

Vejamos. Não nos ligamos mais. Quem hoje te deseja parabéns ao telefone? Ah, vai. Uma mensagem no facebook ou no ‘zapzap’, tem o mesmo efeito. E o abraço? A gente dá quando se encontrar por aí. E a gente se encontra? Difícil. E chega a ser desnecessário, afinal nos falamos todos os dias pelas redes sociais.

Ê, afeto. Por onde anda? Por onde anda a ansiedade dos encontros? Por onde anda o cheiro daquele amigo ou daquele amor? Por onde anda aquele abraço apertado que faz a gente fechar os olhos pra sentir?

Eu declaro: Não temos mais escrito cartas; bilhetes, não temos mais nos olhado, não temos mais nos tocado, não temos mais conseguido expressar aquilo que sentimos.

Este espaço é para mim, para você, para nós refletirmos um pouco sobre isso. É para nós criarmos coragem de ir além nos nossos relacionamentos e ralações. Este espaço é para declararmos, sem receios ou pudores, aquilo que desejamos, que sentimos, que pensamos.

Em breve serão publicados alguns textos, em formatos de crônicas, de cartas, com personagens fictícios ou não, abrindo o seu coração, nos inspirando.

Se você tem alguma história para compartilhar, alguma sugestão para dar, não hesite. Declare-se. Mande-me um e-mail e eu terei prazer em dialogar com você. Quem sabe um dia não possamos tomar um café?

Com afeto,

Larissa Cândido.